Mulheres, adolescentes e crianças são maioria nas estatísticas da violência sexual em Sergipe

 

Por Morgana Barbosa

 

As histórias relatadas pelas vítimas de violência são recorrentes na sala do serviço de atendimento à pessoa em situação de violência sexual, da Maternidade Nossa Senhora de Lourdes (MNSL). No local, os profissionais responsáveis pelo atendimento se mantêm empenhados em contribuir com a recuperação física e psicológica dos pacientes. Somente no período do carnaval 10 pessoas do sexo feminino foram atendidas.

 

Este ano já foram contabilizados 146 atendimentos nesse serviço, somadas as consultas de retorno, atendimentos a casos agudos e crônicos. Em situação de primeiro atendimento foram 42 menores de idade e 15 adultos. De acordo com relatório da instituição, em 2016, o número total de atendimentos chegou a 237, dos quais, 221 foram atendimentos a pacientes do sexo feminino.

 

“Na maioria dos casos, pessoas muito próximas praticam os abusos”, relatou a responsável técnica do Serviço Social da MNSL, Fátima Andrade, ao se referir à realidade em que vivem, especialmente, crianças e adolescentes, dentro de suas próprias casas. A profissional aponta que, entre os casos atendidos na MNSL, as pessoas que praticam o abuso são, em sua maioria, pais, padrastos, vizinhos, ou outras pessoas próximas. Os dados indicam ainda que no caso das mulheres adultas, os atos de violência são cometidos em sua maioria por namorados, maridos ou ex-companheiros, além dos casos de abusos praticados por desconhecidos.

 

Os dados gerais da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, que integra o Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV) da Polícia Civil de Sergipe, mostram que no ano passado 2.668 boletins de ocorrência foram registrados. Já este ano, até o momento, os casos de violência contra a mulher deram origem ao registro de 502 boletins.

 

As estatísticas também são expressivas no Instituto Médico Legal (IML). Os dados do IML, onde é realizado o exame e perícia médica, apontam que no ano passado 1150 mulheres foram atendidas. Já este ano foram 190 casos somente nos dois primeiros meses. Em média há três ocorrências de violência sexual por dia envolvendo principalmente crianças e adolescentes, segundo os registros do IML.

 

“Os principais desafios consistem em conscientizar vítimas e testemunhas a se envolverem mais nas investigações, a fim de bem instruirmos os Inquéritos Policiais, visando a punição dos agressores. O grande avanço veio com o advento das Medidas Protetivas na Lei Maria da Penha, vez que este instituto trouxe mais segurança para as vítimas denunciarem os agressores”, indicou a Delegada Renata Aboim, da Delegacia da Mulher.

 

 

Consequências e tratamento

 

De acordo com a psicóloga Camila Almeida, responsável técnica da Psicologia no serviço de atendimento a pessoa em situação de violência sexual, esses atos acarretam danos de diferentes maneiras, níveis e intensidades. A idade é um dos fatores que interferem nesse processo. “As crianças são as que mais sofrem. Quanto mais novas, mais vulneráveis as influencias externas. Já que a criança ainda está em formação em todos os níveis do seu ser. Ela passa a se estruturar, inclusive, fisiologicamente com a influência marcante dessa experiência”, explica.

 

A psicóloga acrescenta que entre as conseqüências dessas experiências traumáticas estão o desenvolvimento de sintomas da depressão, transtornos de sono, transtornos alimentares, pensamentos  suicidas, doenças psicossomáticas, ataques de pânico, problemas de auto estima, problemas de relacionamento, ansiedade, entre outros, que podem surgir ou permanecer a curto, médio e longo prazo, se não houver o cuidado adequado.

 

“A culpa nunca é da vítima”

 

A psicóloga Camila Almeida, afirma também que ainda hoje as adolescentes e mulheres adultas precisam enfrentar o julgamento social e os preconceitos que, em muitos casos, culpabiliza a vítima pelo ocorrido. “Essa é uma interpretação equivocada, que surge por causa de uma cultura machista ainda vivida nos dias de hoje. A violência, então, não termina nos atos sexuais, impostos às vítimas, mas perpassa a sua busca pela justiça, pela saúde, convívio social e familiar”, analisou.

 

No serviço disponibilizado pela MNSL, os pacientes são acompanhados de seis meses a um ano, porém o tratamento psicológico não tem tempo definido de duração. O que determina o quão rápido uma pessoa consegue se recuperar de um evento traumático é a capacidade que a vítima tem de se recuperar e superar os traumas vividos. “O que é determinante no desenvolvimento da resilência de um indivíduo são as experiências do início de sua vida, enquanto bebê, na relação estabelecida com quem cuida dele. Então isso demonstra a importância que tem uma mãe, ou quem quer que assuma esse papel, na vida de um novo ser humano”, frisou Camila Almeida.

 

 Referência

 

A MNSL é referência no Estado de Sergipe para atendimento as pessoas em situação de violência sexual. O serviço existe desde 2004 e funciona em regime 24 horas, sendo porta aberta para demanda espontânea ou referenciada. A unidade atende todas as pessoas que tenham sofrido violência sexual independentemente de sexo ou idade.

 

Após o acolhimento, em sala reservada, com a garantia da privacidade da vítima, há a aplicação de um protocolo institucional, com garantia de atendimento médico e psicológico imediato. Posteriormente as vítimas são acompanhadas no ambulatório de seguimento, por um período de no mínimo 6 meses com  aparato da equipe multiprofissional. “Orientamos sobre os procedimentos na delegacia, IML (onde é feito o exame de corpo de delito). Não cabe ao serviço de saúde realizar perícia nem laudo“, explicou a referência técnica do Serviço Social da MNSN, Fátima Andrade.

 

São dois os perfis de pacientes, classificados como casos agudos ou crônicos. Os casos agudos requerem aplicação imediata de medicamentos para profilaxia das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) e prevenção da gravidez indesejável. Podem necessitar ou não de intervenção cirúrgica. “Nessa situação a mulher chega mais sensível e abalada, sendo o tempo um fator importante para minimizar danos”, destacou Lourivânia Prado, gerente do Pronto Socorro da MNSL. Ela também confirma que as vítimas geralmente estão enquadradas em um perfil social específico. “O maior volume de atendimento, comprovado pelas estatísticas do serviço, tem sido para crianças e adolescentes do sexo feminino”, destaca.

 

Nos casos em que há menores de idade envolvidos é realizada uma comunicação ao Conselho Tutelar do município de origem do paciente, para que sejam adotadas as medidas cabíveis.  Para os pacientes maiores de idade, a orientação é  seguir o protocolo para garantir os direitos em nível nacional e estadual. “Nesses casos, nós atendemos às demandas da paciente e orientamos sobre os seus direitos e os caminhos a serem seguidos”, destacou Fátima Andrade.

 

Segundo a assistente social, o fato de haver maior divulgação sobre os serviços e direitos dedicados às vítimas, faz com que mais pessoas busquem a assistência. “Há uma relação de confiabilidade. Esses fatores influenciam no maior registro, que é conseqüência, também, da maior informação que as pessoas têm sobre seus direitos e benefícios para a saúde”, complementou a assistente social.

Publicado: 9 de março de 2017, 17:52 | Atualizado: 9 de março de 2017, 17:52